quinta-feira, 12 de novembro de 2015

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A missão da Igreja


Qual a atualidade pastoral do II Concílio Vaticano?


                                       Fonte: Ramos, Julio A., Teología Pastoral, ed. BAC, Madrid, 1995, pp. 55-100.


Proponho que façamos uma pequena viagem pela Gaudium et Spes, Constituição pastoral do Vaticano II, com o intuito de compreender se efetivamente há atualidade na sua ação. Não se pode, no entanto deixar de evidenciar as três constituições dogmáticas que a precederam, pois são a sua fundamentação: Dei Verbum, Sacrosanctum Concilium e Lumen Gentium.
        Este Concílio, convocado em 1962 pelo Papa João XXIII, num período pós-guerras mundiais, foi o concílio do aggiornamento da Igreja, isto é, da atualização e renovação da sua vida pastoral. Mais importante do que as ideias, trouxe um espírito novo, radical, que transformou a Igreja dando-lhe uma postura de diálogo e compromisso, partindo da sua autoconsciência.
        A redação da Constituição Pastoral, que foi o último documento do Concílio, deu um novo sentido à pastoral e à presença da Igreja no Mundo. A renovação da Igreja pela abertura ao mundo é fundada em razões teológico-cristológicas. Da mesma forma que Cristo, participando na natureza humana pela Encarnação nos fez participar da Sua divindade, também a Igreja participando na vida da humanidade lhe participa a vida de Deus. O espírito dialógico da Constituição vai permitindo à Igreja redigir uma antropologia cristã, que a aproxima do mundo. Procura-se consumar a história humana em história da salvação e, assim, quando o Reino de Deus chegar não haverá distinção entre Igreja e Mundo: todos farão parte do Reino. A história humana é vista como sinal revelador de Deus e campo de ação de Deus. É a Igreja que na sua missão vai transformar a realidade a partir da esperança no Reino.
        É importante realçar que o método da Constituição Pastoral, fruto do Concílio, teve por alicerces e fundamento o movimento de Pastoral de Conjunto, de origem francesa e outros movimentos apostólicos, com o método da revisão da vida da Igreja, a encíclica de João XXIII, Pacem in terris, que já remetia para a consciência da natureza humana e para a necessidade da colaboração entre os cristãos e os homens não crentes e a encíclica Ecclesiam suam, do Papa Paulo VI, que, por sua vez, afirmava a necessidade da Igreja se autoconsciencializar e se renovar e de conhecer o mundo moderno.
        Cristo é o centro da Constituição Pastoral, mas a linha cristocêntrica defendida por Paulo VI e pela Lumen Gentium, que partia de Cristo para iluminar o magistério da Igreja é vivida de uma forma nova. Parte-se agora da humanidade para chegar a Cristo, indutivamente, mas também dedutivamente: a humanidade é a origem, todavia a resposta que a Igreja oferece é oriunda dum dom, do acontecimento da Revelação, da práxis cristológica. Isto prova a missão religiosa da Igreja: esta é hoje a encarnação na realidade que foi Cristo outrora. A missão de Cristo universaliza-se no serviço da Igreja ao mundo de hoje, crente e não crente, pela ação do Espírito Santo, uma vez que esta é sacramento originado na sacramentalidade do Verbo encarnado.
        Cristo ensina a lei fundamental da perfeição humana, no caminho para a comunidade nova que é anunciada e antecipada pela Igreja, na vivência da fé e dos sacramentos: o mandamento do Amor. Então Cristo é o acontecimento do passado histórico, mas também do presente e do futuro escatológico.
O Vaticano II descentraliza as ações sacerdotal, profética e transformadora da Igreja, dando também ao comum cristão estas funções. O batismo iguala todo o cristão, permitindo a evangelização por uma nova conceção de Igreja.
Concluindo, e porque estamos num segundo momento de receção conciliar, o Vaticano II, suportado por todos os documentos dele emanados que não perderam qualidade, continua a ser importante pela capacidade que teve para dar uma nova imagem ao ser da Igreja. Os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação com as novas instâncias da Igreja e da sociedade atual globalizada. Porém, a nova geração já não é o contexto conciliar e constata-se que parte das ideias novas do concílio ainda não foram desenvolvidas, quer por clérigos, quer por leigos. Há que voltar a refletir sobre estes ensinamentos e sobre a sua aplicação. Há que aproveitar os trilhos abertos pelo diálogo, renovação, atualização e escuta permanente dos novos sinais dos tempos, através dos quais Deus se manifesta e caminhar rumo a uma ação pastoral fundamentada em Cristo, no mundo e no Reino. Os valores inegáveis do aggiornamento da Igreja requerem uma verdadeira conversão do coração para que sejam fruto do Espírito Santo e não meras palavras invocadas.