sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Síntese da abordagem histórica da Teologia Prática

a partir de Casiano Floristan, Teologia Pratica. Teoria y Praxis de la Accion Pastoral,
Ediciones Sígueme, Salamanca, 1998, pp.31-122

A práxis de Jesus
A ação de Jesus refletida no seu ministério e documentada pelos Evangelhos, testemunhos de fé das primeiras comunidades, nascidos da experiência pré-pascal e pascal, é singular e paradigmática.

A imagem que se tem de Jesus Cristo depende da ação pastoral sofrida e da reflexão teológica empreendida. A família, a paróquia e a comunidade são fundamentais na conceção dessa imagem e, consequentemente, no desenvolvimento da fé cristã.

As cristologias surgidas após a Segunda Guerra Mundial opõe-se, ora desconsiderando a humanidade de Jesus, ora partindo dessa mesma natureza humana.

Compreende-se a dimensão da práxis de Jesus pelo facto d’Ele não ter sido sacerdote do templo, “escriba” da lei, ensinando que Deus é justiça e misericórdia e que o verdadeiro culto é a conversão; pelo facto de ter sido profeta do Reino, anunciando-O e presentificando-O pelas bem-aventuranças, pela sua atividade libertadora, solidária e de comunhão, refletida na comunidade de discípulos que integrou, o modelo do novo povo de Deus, a que se acede pela conversão.

A ação pastoral da Igreja foi díspar ao longo da sua história, resultado da conceção de Igreja desde a antiguidade cristã até ao concílio ecuménico Vaticano II. A Igreja começou por ser vista como Ecclesia Mater, de ação comunitária e mediadora da verdade e da vida.

Passou a uma Igreja como império, na época patrística, ainda assim Mãe ou Esposa pela Palavra e pelo Sacramento, dando importância ao catecumenado. Aqui a ação pastoral focava-se no combate às heresias e expunha a doutrina da salvação seguindo a Bíblia.

No período medieval, época de fé espontânea, a Igreja desempenhou um papel sociológico e serviu de norma jurídica, guardiã dos valores espirituais, políticos e culturais do cristianismo, Ecclesia Regina, submetida à autoridade do Papa. Contrariamente ao espírito do Evangelho, surge a Inquisição (1220-30), resultado de uma vivência totalitária e repressiva. O espírito de comunhão eclesial estava perdido, face às visões eclesiológicas que surgem neste tempo. A aposta na evangelização foi a pregação litúrgica, que nem sempre tinha o resultado esperado.

Face ao protestantismo surgido a ocidente e ao Arianismo a oriente, o Concílio de Trento, na época moderna, tenta uma reforma do ministério da Igreja, apostando na formação adequada dos sacerdotes, apresentando um catecismo e incrementando o papel da família na educação cristã e da catequese.

A eclesiologia pós-tridentina desenvolve uma pastoral centrada nas diferenças, para preservar e defender das heresias e do protestantismo. Assim, centra-se em si mesma, afastando-se da realidade do mundo, afastando-se da história da salvação. Até ao Concílio Vaticano I, a Igreja fecha-se no que foi, fugindo à renovação, ao desenvolvimento e à sua missão peregrina de encarnar-se na sociedade.

Nos finais do século XIX já surgem novos métodos pastorais por parte de confrarias e associações, mesmo que mal vistos pela Igreja e, até o Concílio Vaticano II, a conceção de Igreja é renovada, sinónimo, novamente, de mistério, sacramento, comunhão e comunidade. A sensibilidade pastoral é maior por parte dos teólogos, há um contacto mais íntimo com a Palavra de Deus e uma adaptação do pensamento cristão às exigências do mundo moderno.


Para o estudo da Teologia Prática Fundamental de hoje, é elementar conhecer-se os contextos pelos quais passou a ação pastoral da Igreja, nem sempre refletindo a práxis de Jesus.

1 comentário:

  1. Uma síntese realmente simples que espelha bem o impacto da práxis de Jesus e da evolução da Igreja até ao Concílio Vaticano II no desenvolvimento da Teologia Prática. Parabéns!

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